domingo, 22 de novembro de 2015

Arcebispo convoca Povo de Deus para a XXII Assembleia Arquidiocesana

Dom José Antonio Aparecido Tosi Marques, arcebispo Metropolitano, convoca o Povo de Deus da Arquidiocese de Fortaleza para a XXII ASSEMBLEIA ARQUIDIOCESANA DE PASTORAL que se realizará nos dias 28 e 29 de novembro de 2015, na Faculdade Católica de Fortaleza (Seminário da Prainha).
Veja a Carta de convocação:  FRENTE  e VERSO
XXII_ASSEMBLEIA
Informações pelo fone (85) 3388-8701; (85) 3388-8703

Fonte: Arquidiocese de Fortaleza

A jovialidade dos idosos

Dom Leomar Brustolim
Bispo Auxiliar de Porto Alegre

 

No dia 4 de março de 2015, o Papa Francisco, em Audiência Geral, afirmou que “os anciãos são homens e mulheres, pais e mães que estiveram antes de nós na mesma estrada, na mesma casa, na nossa batalha cotidiana por uma vida digna”. O Papa nos propõe a refletir sobre a arte de envelhecer.
No mundo atual, há uma estimativa que até 2050 o número de idosos passe de 600 milhões para 2 bilhões. Isso significa que, nos próximos 50 anos, haverá mais pessoas com idade superior a 60 anos do que menores de 15 anos. No Brasil, os idosos já superam 15 milhões de pessoas. As pessoas estão vivendo mais tempo graças a uma série de fatores, como o avanço da medicina, a conscientização sobre os cuidados com a vida e a melhora das condições sociais.  
Envelhecer é uma lei da natureza. Isso implica estar sensível ao entardecer da existência. É uma etapa na qual é preciso superar a contraposição entre a idade da força, dos jovens, e a idade da fragilidade, dos velhos. É necessário vencer a crise de sempre se sentir doente em busca de uma juventude perdida ou de um rejuvenescimento a qualquer custo.
No passado, em muitas culturas, os idosos eram testemunhas eloquentes da história e da tradição. Eram os herdeiros privilegiados do tesouro cultural da comunidade e considerados sábios conselheiros que já haviam experimentado as lutas e as dificuldades da vida, mas que haviam aprendido com as provações. Hoje, esse valor quase desapareceu do nosso meio. 
É verdade que a pessoa não pode ocultar sua velhice mas, nos idosos, permanece a inteligência, a capacidade de meditar, a possibilidade de amar e de partilhar pensamentos, ideias e sentimentos. Tudo isso supõe que as pessoas devam se preparar para envelhecer. É preciso manter a jovialidade, mesmo em idade avançada. Isso depende de uma profunda experiência com o Deus da Vida, como bem recorda o salmista sobre aquele que tem fé: “Mesmo na velhice dará fruto, estará viçoso e frondoso, para anunciar que Deus é reto.” (Sl 92,15-16).  
São João Paulo II escreveu uma carta dedicada aos anciãos em 1999, na qual ele afirma que os idosos “ajudam a contemplar os acontecimentos terrenos com mais sabedoria, porque as vicissitudes os tornaram mais experimentados e amadurecidos. Eles são guardiões da memória coletiva e, por isso, intérpretes privilegiados daquele conjunto de ideais e valores humanos que mantêm e guiam a convivência social. Excluí-los é como rejeitar o passado, onde penetram as raízes do presente, em nome de uma modernidade sem memória. Os anciãos, graças à sua experiência amadurecida, são capazes de propor aos jovens conselhos e ensinamentos preciosos.” Da mesma forma, no contexto do Sínodo sobre a Família, é importante destacar o papel dos avós. Eles merecem uma atenção especial para manter o elo entre as gerações. São eles que garantem a transmissão de costumes e valores, tradições e virtudes que permitem aos jovens construir uma identidade que não pode prescindir da herança recebida. 
Enfim, a arte de envelhecer supõe ler esta fase da vida como tempo favorável para levar a bom termo a aventura humana, procurando compreender melhor o sentido da vida para alcançar a ‘sabedoria do coração’.
Fonte: CNBB

“Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor”

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo de Juiz de Fora (MG)


Acorremos todos ao altar do Senhor neste último domingo do Ano da Igreja para agradecer. A Ele elevamos nosso louvor por nos ter dado a perseverança de, ao longo de todo este ano, mergulhar nossas vidas, esforços, bens e dons no mistério da Vida, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Com a força do Santo Espírito e o exemplo de Maria Santíssima, experimentamos a contínua exigência do amor, o poder da voz do Pai ao nos dirigir sua Palavra e a profunda identificação com o Ressuscitado na Eucaristia. A liturgia foi o lugar da graça em que tudo isso se fez real, se tornou história e aprofundou o Reino de Deus em nós.
Neste último domingo, festa de Cristo, Rei do Universo, olhamos para o caminho percorrido e elevamos ao pai nosso louvor e ação de graça. Como foi bom termos revivido passo a passo o caminho de Jesus segundo suas pegadas por meio das orientações do Evangelho de Marcos. Deixou-nos saudades as longas viagens pelas aldeias da Galiléia. Ainda guardamos na memória do coração os amigos que reencontramos. Renovou-se em nós a firmeza e a beleza dos ensinamentos de Jesus. E, especialmente, alertados pelas dificuldades de Pedro e dos outros, tivemos a graça de acompanhar Jesus na sua paixão, morte e ressurreição. E, ao pé da cruz, reforçamos o testemunho do Centurião e bradamos: “Eis aí nosso Rei, o Senhor do Universo, Jesus de Nazaré, o Filho de Deus”. 
Daqui, deste lugar da graça divina, ao pé da cruz de Jesus, agora ressuscitado, descobrimos quem somos e porque estamos aqui, em missão. Nosso Senhor, único Rei, o Mestre da Verdade, nos enviou a todas as aldeias da terra para anunciar o seu Nome e a sua Salvação. Ele, o início e o fim de tudo, aquele que envolve todo o alfabeto da vida, marcou-nos com a missão de estender seu corpo divino e real por todo o universo. Que todas as nações, povos, raças, culturas, línguas encontrem nele a sua verdadeira e mais bela luz. Seu reinado de Paz, justiça, alegria, cuidado, bondade, amor, pelos pés e mãos de seus escolhidos, chegue a todos os que nesta hora precisam dele e clamam por sua assistência.
Renovando nosso ‘sim’ à proposta amorosa do mestre Jesus, olhamos para o futuro. E vemos se descortinar aos nossos olhos, graças a esperança que nele depositamos, o germinar das sementes do Santo Evangelho trazendo flores e frutos, ainda pequeninos, de um universo inteiro transformado pela delicadeza e firmeza da ação da misericórdia do nosso Pai e Deus fiel.
Neste domingo do Cristo Rei, deixemos que Ele, de fato, reine sobre cada um de nós e, assim, se estenda a toda parte a sua presença, seu cuidado, seu toque, seu abraço, sua atenção, cura, vida, vigor, santidade, paz, Shallon. 
Fonte: CNBB

Venha a nós o vosso reino

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará (PA)


As múltiplas convulsões sociais, a violência e as guerras, atentados, morte implacável de inocentes, todos assuntos que já nos provocaram reflexões e busca de caminhos têm causado grande perplexidade em todo o mundo. Há poucos dias a França foi banhada em sangue, refletindo os subterrâneos de embates ideológicos e religiosos, ao mesmo tempo em que verdadeiras hordas de migrantes, exilados e refugiados encarnam um êxodo inimaginável há pouco tempo. Que soluções podem ser oferecidas? E, mais ainda, qual a resposta a ser oferecida por quem acredita em Jesus Cristo, aquele que veio trazer a paz e é, ele mesmo, a nossa paz? Sabemos que ele não oferece a paz como o mundo a procura e pretende oferecê-la. São tímidas, incertas e frágeis as tratativas diplomáticas possíveis em nosso tempo. As respostas dadas, com mais dureza e violência da parte de quem é reconhecido como autoridade, revelam-se incapazes, justamente porque a força utilizada suscita outras muitas reações, que nós cristãos sabemos serem inspiradas pelo pai da mentira, cujas tentações continuam atraindo grandes e pequenos, ricos e pobres.
O relato da condenação de Jesus, no Evangelho de São João (Cf. Jo 18, 33-37) traz um intrigante diálogo entre Pilatos, o tribuno, e Jesus, preso e amarrado, coroado de espinhos, ensanguentado. O assunto é o reino daquele que foi escorraçado pela plebe, soldados e autoridades. Parece ridículo, mas Jesus Cristo tem a ousadia de dizer-se rei, numa situação trágica, que beirava a morte, que efetivamente veio horas depois. No entanto, é com verdadeira majestade que ele se diz rei! O incômodo ficou por conta da covardia daquele que lavou as mãos, incapaz de defender o que lhe trazia verdadeira crise interior. Há entretanto uma diferença fundamental entre o reino conhecido e participado por Pilatos e aquele que ali se inaugurava, colorido de sangue. O de Jesus não é reino deste mundo. Ele não possui exércitos armados para defender suas fronteiras e propriedades. Todo o Evangelho no-lo mostra apaixonado pelo Reino, explicado de inúmeras formas através de gestos e palavras. O seu Reino é o reino da verdade, da justiça, do amor e da paz. 
Um raciocínio bem humano pode levar-nos a comparar os muitos reinos que se edificaram na história, estampados nos poderes hoje existentes, com seus pés de barro (Cf. Dn 2, 31-35) que os fazem ruir mais cedo ou mais tarde, com o Reino de Deus, cujo anseio de repete insistentemente em nossa oração diária do Pai nosso. Quem é mais poderoso? De que vale pedir o Reino de Deus, quando os poderes do mundo é que estão controlando tudo, ainda que nos conduzam a um verdadeiro beco sem saída? Quais são as condições dos donos do poder e do dinheiro para resolverem os impasses do tempo hodierno? 
É realista e ao mesmo tempo doloroso constatar que os séculos passados e o tempo recente mostram os resultados do afastamento dos valores do Evangelho. Não se trata de amaldiçoar ninguém, mas parece ressoar em nossos ouvidos a palavra de nossos pais, que recomendavam não brincar com fogo! Brincamos com o fogo do ódio, da violência, da afirmação egoísta dos próprios direitos e espaços, julgamo-nos proprietários da vida, ridicularizamos as verdades sagradas, e o resultado está aí!
Vamos começar de novo? Vamos buscar caminhos diferentes? A Solenidade de Cristo Rei provoca-nos em profundidade. Começar de novo significa ir atrás dos valores esquecidos. Eles podem chamar-se, por exemplo, perdão e reconciliação, exercício da misericórdia. Quando o Papa Francisco se inclina para lavar os pés dos presos, a imagem corre o mundo, deixando boquiabertos muitos marmanjos do poder e do dinheiro! Quando proclama um Ano Santo, Jubileu da Misericórdia, convidando-nos a passar pela porta santa de nossas catedrais e santuários, indicando-nos o roteiro mais simples que possa existir, feito de peregrinação, confissão, comunhão, oração, prática da caridade, nas obras de misericórdia, não inventou nada de novo, além do que está no Evangelho. As soluções podem ser mais fáceis do que pensamos!
Começar de novo significa tomar iniciativas, criatividade, visitar, dialogar antes de estabelecer julgamentos, buscar as razões do outro, permitir que ao meu lado exista gente que pensa diferente, construir pontes de relacionamento. Há impasses internacionais, como os grupos e ideologias pretendentes à hegemonia, cuja condição é a total destruição dos outros, há o poder do dinheiro, com as negociatas secretas em que armas são igualmente vendidas para antagonistas de todas as cores. Mais perto de nós, na propalada crise política e econômica em que nos encontramos, o impasse se agrava e as soluções ficam distantes, justamente porque o reino, que não é o de Deus, está dividido, pelos interesses individuais ou de grupos que sobrepõem ao bem comum. As fatias valem mais do que o próprio bolo! É que as receitas são interesseiras e maldosas. Mesmo que pensem ser ingênua nossa proposta, não há remédio sem passar pela conversão ao Reino... de Deus! É preciso reaprender o Pai nosso e dizer "Venha a nós o vosso Reino!"
Há alguns anos, fui pároco numa cidade em que os dois chefes políticos eram inimigos figadais, ainda que filho e filha, respectivamente, fossem casados. Passadas as eleições, os dois eram amigos, passavam horas jogando cartas e trocando ideias, mas as relações provincianas do ambiente em que viviam "pediam" briga no período eleitoral. Parece brincadeira, mas tais situações se repetem perto de nós. Só que as inimizades se multiplicam, infelizmente, e alcançam dimensões inimagináveis. De roldão, joga-se pelo ralo o bem comum e a dignidade dos mais pobres. E o mundo parece feitos de meninos de rua jogando pedras nos vizinhos. É o reino dos dois lados! Cresce, então, o reino da mentira. Se sabemos que Deus é o Senhor da história, e a vitória final será daquele a quem pertence a honra, o poder e a glória, sabemos também o quanto o tentador age e suscita intrigas em nosso mundo.
É de São João Paulo II uma palavra forte, pronunciada profeticamente no início de seu pontificado: "Não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o seu poder! Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo! Ao seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas econômicos assim como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem 'o que é que está dentro do homem'. Somente Ele o sabe!" E não tenhamos receio de rezar o Pai nosso, para dizer com mais força ainda: "Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu".
 Fonte: CNBB

Celebra-se hoje o Dia Nacional dos Cristãos Leigos e Leigas

Para dom Severino Clasen, os leigos são pessoas que colaboram na construção de uma sociedade justa e fraterna
O Dia Nacional dos Cristãos Leigos e Leigas é comemorado neste último domingo litúrgico, 22 de novembro, festa de Cristo Rei.  De acordo com o bispo de Caçador (SC) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato, dom Severino Clasen, os leigos são membros efetivos do povo de Deus e assumem diversos ministérios e serviços na Igreja e na sociedade. “Os leigos são todos os batizados, é o povo de Deus. São os fiéis que participam do ministério comum da vida de Jesus pela graça do batismo”, explica.
O bispo acrescenta, ainda, que os leigos “são pessoas de bem que colaboram na construção de uma sociedade justa e fraterna e que são convocados também a participar e construir esse reino a que Jesus veio implantar”. 
Em mensagem por ocasião do Dia Nacional dos Leigos e Leigas, a presidente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), Marilza Schuina, diz que “todos os batizados são chamados a participar da construção do Reino e a assumir os desafios do mundo moderno. Diz também que compete aos  leigos e leigas serem “sal da terra, luz do mundo e fermento da massa". 
O Dia Nacional dos Cristãos Leigos e Leigas é celebrado desde 1991. O CNLB disponibilizou subsídio  de reflexão e celebração para os regionais, (arqui) dioceses, paróquias, movimentos pastorais, associações laçais e comunidades.Informações no site: www.cnlb.org.br 
Foto: CNLB
Fonte: CNBB

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Porta aberta: Laudato si - De 60 a 67

Cidade do Vaticano (RV) - 7. Diversidade de opiniões
60. Finalmente reconhecemos, a propósito da situação e das possíveis soluções, que se desenvolveram diferentes perspectivas e linhas de pensamento. Num dos extremos, alguns defendem a todo o custo o mito do progresso, afirmando que os problemas ecológicos resolver-se-ão simplesmente com novas aplicações técnicas, sem considerações éticas nem mudanças de fundo. No extremo oposto, outros pensam que o ser humano, com qualquer uma das suas intervenções, só pode ameaçar e comprometer o ecossistema mundial, pelo que convém reduzir a sua presença no planeta e impedir-lhe todo o tipo de intervenção. Entre estes extremos, a reflexão deveria identificar possíveis cenários futuros, porque não existe só um caminho de solução. Isto deixaria espaço para uma variedade de contribuições que poderiam entrar em diálogo a fim de se chegar a respostas abrangentes.
61. Sobre muitas questões concretas, a Igreja não tem motivo para propor uma palavra definitiva e entende que deve escutar e promover o debate honesto entre os cientistas, respeitando a diversidade de opiniões. Basta, porém, olhar a realidade com sinceridade, para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum. A esperança convida-nos a reconhecer que sempre há uma saída, sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas. Todavia parece notar-se sintomas dum ponto de ruptura, por causa da alta velocidade das mudanças e da degradação, que se manifestam tanto em catástrofes naturais regionais como em crises sociais ou mesmo financeiras, uma vez que os problemas do mundo não se podem analisar nem explicar de forma isolada. Há regiões que já se encontram particularmente em risco e, prescindindo de qualquer previsão catastrófica, o certo é que o actual sistema mundial é insustentável a partir de vários pontos de vista, porque deixamos de pensar nas finalidades da acção humana: «Se o olhar percorre as regiões do nosso planeta, apercebemo-nos depressa de que a humanidade frustrou a expectativa divina».[35]
CAPÍTULO II
O EVANGELHO DA CRIAÇÃO
62. Por que motivo incluir, neste documento dirigido a todas as pessoas de boa vontade, um capítulo referido às convicções de fé? Não ignoro que alguns, no campo da política e do pensamento, rejeitam decididamente a ideia de um Criador ou consideram-na irrelevante, chegando ao ponto de relegar para o reino do irracional a riqueza que as religiões possam oferecer para uma ecologia integral e o pleno desenvolvimento do género humano; outras vezes, supõe-se que elas constituam uma subcultura, que se deve simplesmente tolerar. Todavia a ciência e a religião, que fornecem diferentes abordagens da realidade, podem entrar num diálogo intenso e frutuoso para ambas.
1. A luz que a fé oferece
63. Se tivermos presente a complexidade da crise ecológica e as suas múltiplas causas, deveremos reconhecer que as soluções não podem vir duma única maneira de interpretar e transformar a realidade. É necessário recorrer também às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade. Se quisermos, de verdade, construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destruído, então nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser transcurada, nem sequer a sabedoria religiosa com a sua linguagem própria. Além disso, a Igreja Católica está aberta ao diálogo com o pensamento filosófico, o que lhe permite produzir várias sínteses entre fé e razão. No que diz respeito às questões sociais, pode-se constatar isto mesmo no desenvolvimento da doutrina social da Igreja, chamada a enriquecer-se cada vez mais a partir dos novos desafios.
64. Por outro lado, embora esta encíclica se abra a um diálogo com todos para, juntos, buscarmos caminhos de libertação, quero mostrar desde o início como as convicções da fé oferecem aos cristãos – e, em parte, também a outros crentes – motivações altas para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis. Se pelo simples facto de ser humanas, as pessoas se sentem movidas a cuidar do ambiente de que fazem parte, «os cristãos, em particular, advertem que a sua tarefa no seio da criação e os seus deveres em relação à natureza e ao Criador fazem parte da sua fé».[36] Por isso é bom, para a humanidade e para o mundo, que nós, crentes, conheçamos melhor os compromissos ecológicos que brotam das nossas convicções.
2. A sabedoria das narrações bíblicas
65. Sem repropor aqui toda a teologia da Criação, queremos saber o que nos dizem as grandes narrações bíblicas sobre a relação do ser humano com o mundo. Na primeira narração da obra criadora, no livro do Génesis, o plano de Deus inclui a criação da humanidade. Depois da criação do homem e da mulher, diz-se que «Deus, vendo a sua obra, considerou-a muito boa» (Gn 1, 31). A Bíblia ensina que cada ser humano é criado por amor, feito à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26). Esta afirmação mostra-nos a imensa dignidade de cada pessoa humana, que «não é somente alguma coisa, mas alguém. É capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e entrar em comunhão com outras pessoas».[37] São João Paulo II recordou que o amor muito especial que o Criador tem por cada ser humano «confere-lhe uma dignidade infinita».[38] Todos aqueles que estão empenhados na defesa da dignidade das pessoas podem encontrar, na fé cristã, as razões mais profundas para tal compromisso. Como é maravilhosa a certeza de que a vida de cada pessoa não se perde num caos desesperador, num mundo regido pelo puro acaso ou por ciclos que se repetem sem sentido! O Criador pode dizer a cada um de nós: «Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia» (Jr 1, 5). Fomos concebidos no coração de Deus e, por isso, «cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário».[39]
66. As narrações da criação no livro do Génesis contêm, na sua linguagem simbólica e narrativa, ensinamentos profundos sobre a existência humana e a sua realidade histórica. Estas narrações sugerem que a existência humana se baseia sobre três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a Bíblia, estas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o pecado. A harmonia entre o Criador, a humanidade e toda a criação foi destruída por termos pretendido ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas limitadas. Este facto distorceu também a natureza do mandato de «dominar» a terra (cf. Gn 1, 28) e de a «cultivar e guardar» (cf. Gn 2, 15). Como resultado, a relação originariamente harmoniosa entre o ser humano e a natureza transformou-se num conflito (cf. Gn 3, 17-19). Por isso, é significativo que a harmonia vivida por São Francisco de Assis com todas as criaturas tenha sido interpretada como uma sanação daquela ruptura. Dizia São Boaventura que, através da reconciliação universal com todas as criaturas, Francisco voltara de alguma forma ao estado de inocência original.[40] Longe deste modelo, o pecado manifesta-se hoje, com toda a sua força de destruição, nas guerras, nas várias formas de violência e abuso, no abandono dos mais frágeis, nos ataques contra a natureza.
67. Não somos Deus. A terra existe antes de nós e foi-nos dada. Isto permite responder a uma acusação lançada contra o pensamento judaico-cristão: foi dito que a narração do Génesis, que convida a «dominar» a terra (cf. Gn 1, 28), favoreceria a exploração selvagem da natureza, apresentando uma imagem do ser humano como dominador e devastador. Mas esta não é uma interpretação correcta da Bíblia, como a entende a Igreja. Se é verdade que nós, cristãos, algumas vezes interpretámos de forma incorrecta as Escrituras, hoje devemos decididamente rejeitar que, do facto de ser criados à imagem de Deus e do mandato de dominar a terra, se deduza um domínio absoluto sobre as outras criaturas. É importante ler os textos bíblicos no seu contexto, com uma justa hermenêutica, e lembrar que nos convidam a «cultivar e guardar» o jardim do mundo (cf. Gn 2, 15). Enquanto «cultivar» quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, «guardar» significa proteger, cuidar, preservar, velar. Isto implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza. Cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de a proteger e garantir a continuidade da sua fertilidade para as gerações futuras. Em última análise, «ao Senhor pertence a terra» (Sl 24/23, 1), a Ele pertence «a terra e tudo o que nela existe» (Dt 10, 14). Por isso, Deus proíbe-nos toda a pretensão de posse absoluta: «Nenhuma terra será vendida definitivamente, porque a terra pertence-Me, e vós sois apenas estrangeiros e meus hóspedes» (Lv 25, 23).
Fonte: Rádio Vaticano

"Só Eucaristia sacia fome de afeto, perdão e misericórdia"

Cidade do Vaticano (RV) – A partir de quinta-feira (12/11), até dia 15, realiza-se em Mumbai o Congresso Eucarístico indiano. O Cardeal Malcolm Ranjith, arcebispo de Colombo, no Sri Lanka, é o Enviado Especial do Papa. Estão participando ainda quatro cardeais indianos: Telesphore Toppo, Baselios Cleemis, George Alencherry e Oswald Gracias, além de 71 bispos e 665 delegados de toda a Índia. 
Os trabalhos serão abertos pelo Card. Toppo, arcebispo de Ranchi, que recordará o seu encontro com a beata Madre Teresa de Calcutá. Sexta-feira (13/11), dois sobreviventes das perseguições anticristãs de 2008 em Orissa darão o seu testemunho. 
O Papa Francisco participa do Congresso com uma mensagem em vídeo. 
Com o tema “Nutridos pela Eucaristia para nutrir os outros”, este Congresso é um dom de Deus não só para os cristãos da Índia, mas para toda a população deste país tão rico de diversidades culturais e espiritualidades”, diz o Papa.
“Os seres humanos de todo o mundo hoje precisam de nutrimento para saciar também fomes como a de amor, de imortalidade, de afeto, atenções, perdão e misericórdia, que podem ser satisfeitas somente com o Pão que vem do alto”, prossegue, explicando que a Eucaristia não se encerra com a comunhão do corpo e do sangue, mas nos conduz à solidariedade com os outros. 
“Quem é saciado e nutrido por Cristo não pode ficar indiferente quando vê seus irmãos e irmãs sofrerem na indigência e na fome. São chamados a levar a alegria do Evangelho àqueles que ainda não a receberam; e reforçados pelo Pão vivente, serem portadores de esperança àqueles que vivem nas trevas e no desespero”.
O Papa encerra a mensagem fazendo votos que o Congresso Eucarístico seja ocasião para a união de todos no amor. 
(CM)
Fonte: Rádio Vaticano